sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Ele ainda bate


Parte 1


Era preciso agir.Algo a impulsionara a correr em direção ao lago,a floresta, e não importasse o motivo por estar lá, deveria agir.As pernas, que tantas vezes saltaram ao colo de seu pai,eram as mesmas que não respondiam aos estímulos.O excesso de gás carbônico aos poucos tirava-lhe a vida.Não respirava para não ser notada.
Ele a encontrou.


Parte 2



Suas mãos frias e molhadas me puxaram do lago.Senti ansiedade em seus lábios ao sugarem a água que sufocava-me.Um risco de luz anunciava minha volta à vida.Seus lindos cabelos negros respingavam e eu notei que a flexão de seus joelhos era um anúncio a sua próxima ação: pegar-me nos braços.
Não senti-me insegura.Sinceramente, nunca havia visto um garoto tão bonito antes.
Abraçando-me disse aos sussurros:"- você não está só! OUVIU ?! RESPIRE!
Soou mais como uma súplica e não como um pedido.
A lágrima desenhou meu rosto ao mesmo tempo em que empregnava na carne exposta dos ferimentos, alertando-o de que ainda havia vida naquele corpo cheio de vestígios da crueldade.
Garantiu-se que meu coração batia.Ele batia.Ele resitiu.


Parte 3


Despertei no hospital.Estava salva.Com todos os olhos possíveis em minha direção.
Percebi que papai chorava desesperadamente, indagando o ser Divino.Mamãe o consolova,beijando sua testa molhada de suor e se contendo para não chorar,para não agir com deselegância a quem quer que fosse.
Fechei os olhos para a volúpia das vozes, para o barulho do aparelho que monitorava meus batimentos cardíacos, e fui tragada pelas lembranças.Lembranças das quais eu deveria esquecer,enterrar.
O garoto-herói não estava lá.Havia entregado-me aos médicos e se ausentado.Senti tanto a falta dele.
Pensei que isso passaria, que as lembranças se dissipariam com os dias.Pensei que os hematomas seriam curados e que as marcas daquele dia não me assombrariam mais.
Estava errada.E o garoto crê que estou viva.Sei que não estou.O óbito ocorreu quando fui molestada pelo "senhor agradável".Morte orgânica da alma.

Peregrino


Peregrino louco,amante dos mares que tudo traga,que queres de mim?
Que eu sonhe com sonhos impossíveis?!
Não traia meu desejo,não apage o giz de meu quadro negro.
Aqueles são erros verídicos,não podem ser apagados,podem?
Anseio pagar meus erros,deixe que eu pereça.
Não estou pronta para ser salva.