
Parte 1
Era preciso agir.Algo a impulsionara a correr em direção ao lago,a floresta, e não importasse o motivo por estar lá, deveria agir.As pernas, que tantas vezes saltaram ao colo de seu pai,eram as mesmas que não respondiam aos estímulos.O excesso de gás carbônico aos poucos tirava-lhe a vida.Não respirava para não ser notada.
Ele a encontrou.
Parte 2
Suas mãos frias e molhadas me puxaram do lago.Senti ansiedade em seus lábios ao sugarem a água que sufocava-me.Um risco de luz anunciava minha volta à vida.Seus lindos cabelos negros respingavam e eu notei que a flexão de seus joelhos era um anúncio a sua próxima ação: pegar-me nos braços.
Não senti-me insegura.Sinceramente, nunca havia visto um garoto tão bonito antes.
Abraçando-me disse aos sussurros:"- você não está só! OUVIU ?! RESPIRE!
Soou mais como uma súplica e não como um pedido.
A lágrima desenhou meu rosto ao mesmo tempo em que empregnava na carne exposta dos ferimentos, alertando-o de que ainda havia vida naquele corpo cheio de vestígios da crueldade.
Garantiu-se que meu coração batia.Ele batia.Ele resitiu.
Parte 3
Despertei no hospital.Estava salva.Com todos os olhos possíveis em minha direção.
Percebi que papai chorava desesperadamente, indagando o ser Divino.Mamãe o consolova,beijando sua testa molhada de suor e se contendo para não chorar,para não agir com deselegância a quem quer que fosse.
Fechei os olhos para a volúpia das vozes, para o barulho do aparelho que monitorava meus batimentos cardíacos, e fui tragada pelas lembranças.Lembranças das quais eu deveria esquecer,enterrar.
O garoto-herói não estava lá.Havia entregado-me aos médicos e se ausentado.Senti tanto a falta dele.
Pensei que isso passaria, que as lembranças se dissipariam com os dias.Pensei que os hematomas seriam curados e que as marcas daquele dia não me assombrariam mais.
Estava errada.E o garoto crê que estou viva.Sei que não estou.O óbito ocorreu quando fui molestada pelo "senhor agradável".Morte orgânica da alma.
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