“De nos
perdermos um do outro o maior medo”
Esther P. S. Rosado
Quando olhou no
espelho, não refletiu sua própria imagem. Era ela, não ele ali
refletido.
Suspirou fundo. Como
ela conseguia ser tão presente depois de tanto tempo?
Os olhos, as mãos, os
trejeitos de sorrir...
O eco da voz suave e
doce ainda o pertubava. Lembrou daquele abraço que sabia ser sincero
e amoroso. Desejou-lhe outra vez. Mais uma vez...
Notou que nunca viu
sorriso igual ao dela e se intristeceu.
Haviam imaginado um
futuro conjunto. Ela acadêmica, ele também.
Casariam quando
estivessem estabilizados economicamente. Seriam pais exemplares,
amando seus filhos como se deve amar.
Ela pedia com tanta
confiança para que ele segurasse a barra, que suportasse as
adversidades. Implorava para que ele aguentasse a distância, embora
nunca tenha prometido regresso.
Ele olhava com carinho
para o esforço dela, empenhava-se em ajudá-la a suportar a saudade
da vida antiga.Sempre que podia, o guri reprimia seus desejos para
mantê-la como a conheceu.
Mas eles eram jovens,
não eram obrigados a suportar tantas dificuldades. Quem poderia
garantir-lhes que valeria a pena tanto sofrimento e saudade ? Qual
era o motivo de se deixar crescer um sentimento que, mais cedo ou
mais tarde, precisaria morrer?
Desistiu. Desistiram.
Afastaram-se como não
se deve fazer.
Segredos guardados
agora por estranhos.
Quase não se falam,
não permitem que o outro note o bater acelerado do coração.Preferem
fechar os olhos a ter que deixar que o outro perceba o quanto os
olhos tornam-se cintilantes em segundos. Concentram-se em respirar
perfeitamente normal para que não se explicite a inquietute que a
presença do outro causa …
Escondem, quando
necessário, tudo que revele a paixão e o desejo que ainda não
passou.
Eles preferem, na
altura do campeonato, dizer que superaram. Tudo realmente acabou.
Nada de amor por ali, nada de lembranças boas, nada de vontade
súbita em voltar...
Ambos permitiram
terceiros em suas vidas e nem se lembram mais que se beijaram pela
primeira vez em determinado local, às exatas horas e minutos.Fizeram
questão de esquecer as predileções do outro.
Ela finge que esqueceu
o perfume predileto dele, enquanto ele esconde que um dia soube que
ela tem cócegas na barriga.
Esqueceram dos beijos
embaraçados, dos medos, dos choros, das gargalhadas, dos sonhos, da
vergonha, da confiança, da sinceridade, do ciúme, do medo de
perder, do controle...
Só porque não sentem
falta não quer dizer que não faça.
Cada um deles sabe, que
antes de se perderem totalmente, é preciso encontrar o outro e ter
coragem de dizer a verdade.
Eles só conseguem ser
eles mesmos quando estão juntos, porque são melhores assim.
Há quem diga que,
passe o tempo que for, novembro regressará.
Há quem não perca a
esperança de que o destino faz as coisas belas acontecerem.
Passe o tempo que for,
acredito que novembro retornará

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