segunda-feira, 18 de março de 2013

Era novembro





“De nos perdermos um do outro o maior medo”
                                                                                                  Esther P. S. Rosado




Quando olhou no espelho, não refletiu sua própria imagem. Era ela, não ele ali refletido.
Suspirou fundo. Como ela conseguia ser tão presente depois de tanto tempo?
Os olhos, as mãos, os trejeitos de sorrir...
O eco da voz suave e doce ainda o pertubava. Lembrou daquele abraço que sabia ser sincero e amoroso. Desejou-lhe outra vez. Mais uma vez...
Notou que nunca viu sorriso igual ao dela e se intristeceu.
Haviam imaginado um futuro conjunto. Ela acadêmica, ele também.
Casariam quando estivessem estabilizados economicamente. Seriam pais exemplares, amando seus filhos como se deve amar.
Ela pedia com tanta confiança para que ele segurasse a barra, que suportasse as adversidades. Implorava para que ele aguentasse a distância, embora nunca tenha prometido regresso.
Ele olhava com carinho para o esforço dela, empenhava-se em ajudá-la a suportar a saudade da vida antiga.Sempre que podia, o guri reprimia seus desejos para mantê-la como a conheceu.
Mas eles eram jovens, não eram obrigados a suportar tantas dificuldades. Quem poderia garantir-lhes que valeria a pena tanto sofrimento e saudade ? Qual era o motivo de se deixar crescer um sentimento que, mais cedo ou mais tarde, precisaria morrer?
Desistiu. Desistiram.
Afastaram-se como não se deve fazer.
Segredos guardados agora por estranhos.
Quase não se falam, não permitem que o outro note o bater acelerado do coração.Preferem fechar os olhos a ter que deixar que o outro perceba o quanto os olhos tornam-se cintilantes em segundos. Concentram-se em respirar perfeitamente normal para que não se explicite a inquietute que a presença do outro causa …
Escondem, quando necessário, tudo que revele a paixão e o desejo que ainda não passou.
Eles preferem, na altura do campeonato, dizer que superaram. Tudo realmente acabou. Nada de amor por ali, nada de lembranças boas, nada de vontade súbita em voltar...
Ambos permitiram terceiros em suas vidas e nem se lembram mais que se beijaram pela primeira vez em determinado local, às exatas horas e minutos.Fizeram questão de esquecer as predileções do outro.
Ela finge que esqueceu o perfume predileto dele, enquanto ele esconde que um dia soube que ela tem cócegas na barriga.
Esqueceram dos beijos embaraçados, dos medos, dos choros, das gargalhadas, dos sonhos, da vergonha, da confiança, da sinceridade, do ciúme, do medo de perder, do controle...
Só porque não sentem falta não quer dizer que não faça.
Cada um deles sabe, que antes de se perderem totalmente, é preciso encontrar o outro e ter coragem de dizer a verdade.
Eles só conseguem ser eles mesmos quando estão juntos, porque são melhores assim.
Há quem diga que, passe o tempo que for, novembro regressará.
Há quem não perca a esperança de que o destino faz as coisas belas acontecerem.
Passe o tempo que for, acredito que novembro retornará


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